Opiniões desinteressadas, por vezes desinteressantes. Fruto da ociosidade de um aluno do curso de Direito da UNESP-Franca, que na verdade tem coisa melhor para fazer, mas está com preguiça. ICQ#:250485331
Quando eu tinha uns 12 anos, estudava no período vespertino em uma escola estadual. Fazia muito calor, a tarde inteira, e o fato de haver um pouco menos de cinqüenta crianças na sala só piorava o abafado.
Quando chovia todos ficavam mais animados. O frescor que a chuva trazia, junto com o barulho nas telhas, era como uma contra-professora. Como alguém que nos incentivava a falar mais, nos mexer mais, criançar mais, enfim.
E quando a chuva parava, por outro lado, dava-se o exato oposto. O barulho da chuva ia diminuindo e automaticamente o volume de nossas vozes diminuía também. Ficávamos tranqüilos e quietos. Mais tranqüilos do que quietos, mas em uma quietude sincera. Não imposta.
Uma coisa é quando queremos falar e alguém nos faz calar. Aí é um silêncio assustado e meramente suspenso. Tanto que, após exigí-lo, bastava que a professora se virasse para o quadro para que as conversas interrompidas dessem continuidade, pelo menos por mais uma frase, que encerrasse o assunto.
Já esse silêncio de quando a chuva parava, por ser voluntário, era quase definitivo. Todos sentiam-se bem na ausência do barulho. As professoras, apesar do calor, também ficavam muito mais tranqüilas quando não chovia.
Lembro-me de um dia no qual começou a chover durante a aula. Eu olhei para minha direita para conferir as gotas através da janela e, estranhamente, não vi chuva alguma. Então me virei para o outro lado, onde ficava a porta, e vi que para lá a chuva caía.
A chuva caía de um lado da sala, e de outro lado não. O comentário foi geral entre o pequeno corpo discente, e a professora, que estava ensinando algo como matemática ou história, viu suas palavras escoarem como se aquela meia-chuva lavasse completamente nossos cérebros.
Ela então exigiu atenção para a lousa e ordenou que parássemos com aquela história de chuva – É só uma nuvem! Parece que nunca viram! – Eu, pessoalmente, nunca tinha visto mesmo. E nem me lembro de alguma vez que voltei a ver: à esquerda chuva, à direita sol, à frente matemática (ou história).
Voltamos a ficar razoavelmente quietos e com a cabeça virada para frente, como quem está assistindo à aula. Mas não havia como ignorar, ou mesmo disfarçar, a excitação que aquele fugaz fenômeno causava.
Não recrimino minha antiga professora, a qual certamente tinha as melhores das intenções. Mas espero sinceramente que estes profissionais, que têm como missão justamente instigar a inteligência e a curiosidade, sejam capazes de compreender a beleza singela de acontecimentos como esse e admirá-los também.
Tanto não era apenas uma nuvem que, dentre tantas nuvem que me passaram, daquela me lembro até hoje.
Isso aconteceu comigo semana passada. Estava voltando de um feriado em São Sebastião, quando desci na estação de Campinas para trocar de ônibus, pegando outro para Capivari.
Entre a chegada e a partida tinha ali uns quarenta minutos. Ajustei a agenda do meu celular para me avisar quando fosse hora de descer para a plataforma de embarque e fiquei zanzando durante um tempo por aquela rodoviária, que já me consumiu várias horas em espera.
Chegou uma hora, então, em que resolvi descer. Havia cansado de ficar lá em cima. E bem na hora que cheguei perto da escada o celular despertou, avisando que era hora mesmo. Desci e encontrei uma fila de pessoas que iam embarcar também. O ônibus chegou. Um rapaz (sem uniforme, devia ser novo no negócio) estava tendo problemas em manter as portas dos bagageiros abertas. Ele as levantava, elas caiam. Fui até lá e tentei mostrar para ele como a mesma trava que fechava as portas serviam para segurá-las, mas não consegui. Chegamos os dois à conclusão de que elas estavam quebradas.
Eu fiquei ali então, segurando a porta enquanto o garoto colocava algumas malas no bagageiro. A minha mala mesmo eu preferia carregar comigo, já que nela estavam meu livro, meu radinho de pilha, alguma comida, essas coisas que destraem.
Depois fui para o final da fila. Fiquei ali de pé pensando no meu novo emprego. Já tinha trabalhado uma semana. Pensava se os meus colegas estavam satisfeitos comigo; se meu chefe estava satisfeito comigo; o que iria fazer no dia seguinte, quando chegasse... Tive uma idéia para uma contestação que tinha que ser feita... E de repente vejo o ônibus indo embora.
Fico atônito pelo tempo do ônibus sair de sua vaga e saio correndo atrás dele. Na mesma hora estão saindo outros cinco ônibus e eu corro entre eles, com minha mala nos braços. Saio da rodoviária pela saída da garagem e viro à esquerda, torcendo para que o motorista, parado no semáforo, me deixe entrar.
Mas no semáforo o ônibus parado é um Cometa, não o meu. Será que o meu passou no sinal, que teria fechado justo naquele momento? Lembrei, mais uma vez surpreendido com minha panaquice, que virei para o lado errado. O ônibus havia virado à direita.
Corri ainda mais, e a mala começou a ficar pesada. Fui atrás do ônibus que eu tinha quase certeza ser o meu por uns dois quarteirões, sempre de cinco a dez metros atrás dele. Então ele virou a esquina e seguiu. Enquanto eu fiquei no meio da rua, sem fôlego e sem forças, gritando com a passagem na mão.
Comecei a caminhar de volta para a rodoviária, derrotado. Resolvi que ia prestar atenção nas placas dos carros em frente ao prédio, porque podia ser que alguém de Capivari tivesse ido deixar algum parente por lá e estivesse saindo naquele momento. Fui olhando carro por carro com que cruzava, mas, é claro, não encontrei nenhuma carona.
Entrei na rodoviária pensando no que diria no guichê, quando fosse pedir para eles trocarem meu bilhete por um do próximo ônibus, provavelmente dalí a uma hora. Com certeza não ia falar que fiquei olhando o ônibus ir embora e não consegui alcançá-lo na corrida. Mas já me acontecera de perder a viagem e trocarem a passagem. Deve haver alguma lei que os obrigue a fazer isso (do contrário nunca o fariam, com certeza). Diria que perdi o ônibus por pouco e ponto. Eram naquele momento, segundo meu celular... dezenove horas? Bom, ou toda a corrida atrás do ônibus demorou menos de um minuto, ou ele saíra adiantado. De qualquer maneira, era um argumento a mais para que trocassem a passagem, já que era a hora combinada e eu estava lá, mas o ônibus não.
Para confirmar, chequei o relógio da rodoviária. Cinco minutos para as sete.
Mas como? No momento em que vi aquele relógio estava exatamente na frente da escada para a plataforma. O lugar onde estava alguns minutos antes, quando desci para pegar o ônibus.
Desci, pela segunda vez, a escada e lá estavam as pessoas, e logo chegou o ônibus. Só que desta vez o garoto sabia fechar a porta do bagageiro. Não tive dúvidas: voltei no tempo.
Francamente, não pensei muito a respeito da causa daquilo. Estava satisfeito por ter a chance de pegar o ônibus e chegar em casa uma hora mais cedo, e assim o fiz. Foi uma experiência tão inexplicável quanto a vez em que um pingente meu, feito de lata, o qual tinha uma inscrição católica da qual não me lembro, saiu do cordão que o sustentava no meu pescoço, sem que se rompesse o cordão e nem o buraco do pingente. Acho que coisas mágicas acontecem na vida de todo mundo.
Vou ficar do seu lado
com a mesma intensidade
com que fico acordado
até dormir.
Vou olhar seus olhos
com a mesma intensidade
com que fico vivo
antes de morrer.
Meu amor é absoluto
não te amo menos do que tudo
do que o máximo impossível.
Não importa quanto tempo passe
sempre que eu vir seu olhos
o meu sorriso vai continuar surgindo.
Valsa:
Minha amiga, adorada
faz de mim sua morada
vem viver pra me amar
Minha doce companheira
seja a última e primeira
dama do meu país
Vem pra mim, doce fêmea
De cabelos longos
de pele morena
de boca feita
para beijar
Porque sem você
eu fico sozinho
meu peito partido
minha mente a girar
A sua busca
Não vá, não fuja
fique aqui pra me mimar.
Samba:
Não duvida de mim, neguinha,
que eu larguei da vida pra fazer outra com você.
Hoje o atabaque é igual bate-estaca,
ritimo pra mim não é nada
Do tamborim o tec-tec
troquei pelo da Olivetti.
A viola eu só ouço
se a música for sobre você.
Da cachaça então, faz tempo que eu larguei mão
Voltei para a igreja, tô quase arrumando emprego
E assim que juntar dez mil cruzeiros, prometo,
que vou pedir a sua mão....
Meia-noite. É natal. Finalmente. Hoje eu só tenho que fazer ronda até uma da madrugada. Bela folga.
Na rua uns poucos carros, todos conhecidos. Famílias que trocam presentes e depois vão ceiar nos parentes, ou que ceiam depois voltam pra casa trocar presentes. A mãe do meu filho diz pra ele que eu estou em um lugar que não pega celular. Não queria mesmo falar com ele.
Meia-noite e dez. Alguém pula o muro da casa de uma família que foi para o Guarujá. Meu cigarro estava na metade.
Toco o apito. Toco a campanhia. Ele finge que não está lá. Mas eu insisto, e a luz está acesa. Ele resolve fingir que a casa é dele. "Boa noite! Algum problema?" Algum problema? Cara-de-pau.
"Boa noite. A família que mora aqui está viajando. Quem é você?" Não sei por quê ainda estou falando. Talvez porque eu não tenha uma arma. Senão já teria resolvido a situação. Devia ter ligado para a polícia antes.
"Sou primo do dono. Ele pediu pra eu vir pegar a correspondência, o jornal..." Sei. Meia-noite, no natal.
"E por que você pulou o muro?"
"Ele se esqueceu de me dar a chave. Ligou hoje pedindo para eu vir. Parece que tá esperando alguma encomenda importante..." História muito ruim. Meu filho inventava umas melhores com cinco anos. "Escuta aqui, e quem é você?" ele diz. Já sabe que dançou.
"O vigia da rua."
"Bela merda." Tá certo. Bela merda, mesmo. Começo a andar para esquina. De lá ligo para a polícia e vejo pra que lado ele foge. Se precisar, já guardei bem o rosto dele.
Ando vinte metros, quando ele vem atrás de mim, com uma cara mais amigável, trazendo um embrulho.
"Olha cara, eu vou te falar a verdade: eu sou Papai Noel. Entrei ali para deixar uns presentes. Mas se você falar pra alguém, vai estragar tudo! Toma, leva esse aqui pro seu garoto!" Que merda. Ele devia tá só jogando verde. "É um helicóptero, com controle remoto!"
Meu filho ia gostar. Talvez até a mãe deixasse ele falar mais comigo. Mas calculei que era melhor não pegar o presente e manter o emprego que pagava a pensão dele.
"Enfia no cu e faz ele girar."
Não precisava ter falado aquilo. Mas ainda bem que falei. Ele ia puxar a arma de qualquer jeito. Noel o caralho. Três tiros no peito.
Imagine uma região em que a falta de atuação estatal leva à criação de regras próprias, segundo as quais cada um resolve seus próprios problemas; muitas vezes com tiros. Imagine esta comunidade envolta em conflitos rurais nos quais grandes latifundiários utilizam-se do seu poder econômico e político para negar a pequenos produtores seus direitos. Este cenário bem poderia ser encontrado no Brasil de hoje, seja no interior de São Paulo, Minas Gerais ou Mato Grosso. Mas também é visto no filme norte-americano “O homem que matou o facínora” (The man who shot Liberty Valance, 1962), de John Ford, mesmo direitor de “As vinhas da ira”.
O filme retrata o velho oeste e, principalmente, a chegada da lei, do Estado e da Democracia onde até então prevalecia uma lei das selvas, com a população à mercê da violência imposta por bandidos, os quais inclusive eram alinhados aos interesses dos latifundiários.
Há uma trindade fundamental de personagens na história, interpretada por três excelentes atores, cada um sendo perfeito para seu papel: Lee Marvin, James Stewart e John Wayne. Marvin faz o tal facínora do título. Este adjetivo, que já não é tão usado, significa perverso, cruel, criminoso. Lee Marvin sempre teve sua figura associada ao homem “durão”. No ultra-violento e já clássico “Cães de Aluguel” (1992), de Quentin Tarantino, Marvin é citado pelos personagens como modelo de homem cool. Ou seja, frio, intransponível em suas vontades.
Já James Stewart, célebre em suas parcerias com Alfred Hitchcock em seus maiores clássicos (Um corpo que cai, Festim diabólico, O homem que sabia demais, Janela indiscreta), identifica-se com o cidadão standart do ideal norte-americano. Honesto, justo, um tanto provinciano. Talvez até ingênuo em suas crenças de liberdade e igualdade, que são afinal as bases do Estado de Direito e de sua legitimidade. Stewart interpreta um advogado recém formado que vai “fazer o Oeste”. Vale dizer, vai levar o governo onde até então havia apenas povo e território.
Enquanto Stewart representa o Estado, o governo, a política, John Wayne representa o povo do lugarejo. Trata-se do vaqueiro encarnado por Wayne de tantos clássicos de faroeste. O legítimo boa-praça, trabalhador e querido da comunidade, e o único que faz frente ao temido bandido de Marvin.
Os estudantes de Direito de hoje ainda podem ter algo a aprender com este filme. Ele nos mostra que o Estado não se faz somente de documentos, títulos e leis. Essas coisas de nada valem sem a legitimidade que somente a participação popular pode trazer. O advogado de Stewart aprende isso logo no começo da película, quando, ao levantar voz prisão contra Lee Marvin, que o assaltava e maltratava uma senhora, leva deste uma surra que o deixa à beira da morte. De nada adianta carteiradas como a que o personagem inutilmente tenta dar se não houver conteúdo material nenhum por trás de seu documento. O Estado, como um ser fantástico, somente existe se as pessoas acreditarem nele.
Da mesma forma que um Estado ineficiente nada pode contra tiros, mostrou-se inútil a força bruta que John Wayne utilizava para impor respeito sobre os mal-feitores quando os interesses da comunidade começam a ser ameaçados pelo poder econômico dos latifundiários. Para este problema, é necessário o Direito.
Stewart percebe que não pode haver Direito onde a população não reconhece os seus próprios. Começa então, com a ajuda do editor do jornal local, a levar educação ao povoado, não apenas alfabetizando-os, mas levando a eles noções de cidadania e democracia. Não o faz, contudo, de maneira impositiva, como um alienígena que procura impor regras novas descabidas. Antes, ele se integra à comunidade, trabalhando como garçom em troca de teto e comida, e submetendo-se aos mesmos percalços que a comunidade sofria.
Como dito anteriormente, por separados no tempo e no espaço que estejamos do episódio de “O homem que matou o facínora”, muitos elementos presentes no filme são aplicáveis de forma direta em nossa sociedade. Basta observar-se o trabalho de grupos de extensão da UNESP – Franca como o GAPAF e o Observatório Social das Relações de Consumo e se notará o mesmo espírito de inclusão social. A busca da cidadania pela educação tem como obra prima no Brasil a “Pedagogia do oprimido”, de Paulo Freire. Não seria difícil fazer um remake de “O homem que matou o facínora” passado nos dias de hoje, no Brasil, em alguma favela, alguma ocupação de trabalhadores sem-terra, ou em qualquer dos lugares onde pessoas pobres vivem sem amparo estatal algum, ausentes de direitos e de cidadania.
Em tempos de “Tropa de Elite”, em que se pese os exageros e ufanismos comuns na linguagem cinematográfica, talvez seja bom lembrar de um filme em que o Estado se pretende representante e defensor dos interesses do povo oprimido, e não seu carrasco.
Se por um lado os americanos (estadosunidenses) podem ser acusados pelos cinéfilos/chatos de terem acabado com a arte de Chaplim e Bergman com seus blockbusters, por outro lado eles com certeza são os responsáveis pelo florescimento de um novo tipo de arte: os seriados de tv. Fazem melhor do que os ingleses? Não sei. Mas com certeza fazem mais. posted by Fernando 12:48 AM
Caros amigos da Rede Globo (como diria o Galvão). Escreve-lhes esta mensagem com a esperança que ela chegue até o responsável pela programação cinematográfica do canal, especialmente da Sessão da Tarde.
Como praticamente todo brasileiro, sou espectador assíduo da Rede Globo, e tenho especial gosto pelos filmes exibidos. Um dos meus maiores prazeres nas tardes em que tenho folga é assistir à Sessão da Tarde, algo que para mim é quase um culto.
Contudo, todo ano sofro com o mesmo problema: Justamente na época em que fico mais tempo em casa - no mês de dezembro, em que já estou de férias porém ainda não saí em viagem - a programação é tomada por chatíssimos telefilmes cheios de clichês, todo com O MESMO PERSONAGEM, qual seja PAPAI NOEL.
Compreendo que exista um esforço por parte do canal para a difusão do espírito natalino, mas creio que não precisamos chegar ao extremo alcançado nos anos anteriores, e que pelo jeito corre o risco de se repetir, visto que hoje, no meu primeiro dia de semana em casa, é exibido um destes fatídicos filmes de Natal.
Peço encarecida e humildemente que a programação da Sessão da Tarde seja variada também neste período. Podemos chegar a um meio termo. Creio que apenas um ou dois filmes com Papai Noel por semana já estaria de bom tamanho.
Sugiro que seja dada preferência às reprises que são chamadas carinhosamente de "clássicos da sessão da tarde", tais como "Goonies" e "Curtindo a vida adoidado", além de "Garotos Perdidos" e "Howard - o Pato".
Agradeço a atenção, e espero, sinceramente, ser ouvido. Ainda que meu pedido pareça um tanto cômico, trata-se de algo que me incomoda a muito tempo, e tenho certeza que desagrada muitos outros telespectadores, também. Inclusive às crianças!