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Sexta-feira, Dezembro 28, 2007
Soneto:
Vou ficar do seu lado
com a mesma intensidade
com que fico acordado
até dormir.
Vou olhar seus olhos
com a mesma intensidade
com que fico vivo
antes de morrer.
Meu amor é absoluto
não te amo menos do que tudo
do que o máximo impossível.
Não importa quanto tempo passe
sempre que eu vir seu olhos
o meu sorriso vai continuar surgindo.
Valsa:
Minha amiga, adorada
faz de mim sua morada
vem viver pra me amar
Minha doce companheira
seja a última e primeira
dama do meu país
Vem pra mim, doce fêmea
De cabelos longos
de pele morena
de boca feita
para beijar
Porque sem você
eu fico sozinho
meu peito partido
minha mente a girar
A sua busca
Não vá, não fuja
fique aqui pra me mimar.
Samba:
Não duvida de mim, neguinha,
que eu larguei da vida pra fazer outra com você.
Hoje o atabaque é igual bate-estaca,
ritimo pra mim não é nada
Do tamborim o tec-tec
troquei pelo da Olivetti.
A viola eu só ouço
se a música for sobre você.
Da cachaça então, faz tempo que eu larguei mão
Voltei para a igreja, tô quase arrumando emprego
E assim que juntar dez mil cruzeiros, prometo,
que vou pedir a sua mão....
posted by Fernando 3:51 AM
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Terça-feira, Dezembro 25, 2007
CONTO DE NATAL
Meia-noite. É natal. Finalmente. Hoje eu só tenho que fazer ronda até uma da madrugada. Bela folga.
Na rua uns poucos carros, todos conhecidos. Famílias que trocam presentes e depois vão ceiar nos parentes, ou que ceiam depois voltam pra casa trocar presentes. A mãe do meu filho diz pra ele que eu estou em um lugar que não pega celular. Não queria mesmo falar com ele.
Meia-noite e dez. Alguém pula o muro da casa de uma família que foi para o Guarujá. Meu cigarro estava na metade.
Toco o apito. Toco a campanhia. Ele finge que não está lá. Mas eu insisto, e a luz está acesa. Ele resolve fingir que a casa é dele. "Boa noite! Algum problema?" Algum problema? Cara-de-pau.
"Boa noite. A família que mora aqui está viajando. Quem é você?" Não sei por quê ainda estou falando. Talvez porque eu não tenha uma arma. Senão já teria resolvido a situação. Devia ter ligado para a polícia antes.
"Sou primo do dono. Ele pediu pra eu vir pegar a correspondência, o jornal..." Sei. Meia-noite, no natal.
"E por que você pulou o muro?"
"Ele se esqueceu de me dar a chave. Ligou hoje pedindo para eu vir. Parece que tá esperando alguma encomenda importante..." História muito ruim. Meu filho inventava umas melhores com cinco anos. "Escuta aqui, e quem é você?" ele diz. Já sabe que dançou.
"O vigia da rua."
"Bela merda." Tá certo. Bela merda, mesmo. Começo a andar para esquina. De lá ligo para a polícia e vejo pra que lado ele foge. Se precisar, já guardei bem o rosto dele.
Ando vinte metros, quando ele vem atrás de mim, com uma cara mais amigável, trazendo um embrulho.
"Olha cara, eu vou te falar a verdade: eu sou Papai Noel. Entrei ali para deixar uns presentes. Mas se você falar pra alguém, vai estragar tudo! Toma, leva esse aqui pro seu garoto!" Que merda. Ele devia tá só jogando verde. "É um helicóptero, com controle remoto!"
Meu filho ia gostar. Talvez até a mãe deixasse ele falar mais comigo. Mas calculei que era melhor não pegar o presente e manter o emprego que pagava a pensão dele.
"Enfia no cu e faz ele girar."
Não precisava ter falado aquilo. Mas ainda bem que falei. Ele ia puxar a arma de qualquer jeito. Noel o caralho. Três tiros no peito.
posted by Fernando 3:22 AM
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Sábado, Dezembro 22, 2007
Poeminha de amor sem verbo
Sementinha, formiguinha, folhinha...
Elefante.
Prédio, avião, estádio de futebol...
Continente.
Planeta, Sol, galáxia...
Meu amor.
posted by Fernando 6:24 PM
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Quinta-feira, Dezembro 13, 2007
Povo, Direito e o facínora
Imagine uma região em que a falta de atuação estatal leva à criação de regras próprias, segundo as quais cada um resolve seus próprios problemas; muitas vezes com tiros. Imagine esta comunidade envolta em conflitos rurais nos quais grandes latifundiários utilizam-se do seu poder econômico e político para negar a pequenos produtores seus direitos. Este cenário bem poderia ser encontrado no Brasil de hoje, seja no interior de São Paulo, Minas Gerais ou Mato Grosso. Mas também é visto no filme norte-americano “O homem que matou o facínora” (The man who shot Liberty Valance, 1962), de John Ford, mesmo direitor de “As vinhas da ira”.
O filme retrata o velho oeste e, principalmente, a chegada da lei, do Estado e da Democracia onde até então prevalecia uma lei das selvas, com a população à mercê da violência imposta por bandidos, os quais inclusive eram alinhados aos interesses dos latifundiários.
Há uma trindade fundamental de personagens na história, interpretada por três excelentes atores, cada um sendo perfeito para seu papel: Lee Marvin, James Stewart e John Wayne. Marvin faz o tal facínora do título. Este adjetivo, que já não é tão usado, significa perverso, cruel, criminoso. Lee Marvin sempre teve sua figura associada ao homem “durão”. No ultra-violento e já clássico “Cães de Aluguel” (1992), de Quentin Tarantino, Marvin é citado pelos personagens como modelo de homem cool. Ou seja, frio, intransponível em suas vontades.
Já James Stewart, célebre em suas parcerias com Alfred Hitchcock em seus maiores clássicos (Um corpo que cai, Festim diabólico, O homem que sabia demais, Janela indiscreta), identifica-se com o cidadão standart do ideal norte-americano. Honesto, justo, um tanto provinciano. Talvez até ingênuo em suas crenças de liberdade e igualdade, que são afinal as bases do Estado de Direito e de sua legitimidade. Stewart interpreta um advogado recém formado que vai “fazer o Oeste”. Vale dizer, vai levar o governo onde até então havia apenas povo e território.
Enquanto Stewart representa o Estado, o governo, a política, John Wayne representa o povo do lugarejo. Trata-se do vaqueiro encarnado por Wayne de tantos clássicos de faroeste. O legítimo boa-praça, trabalhador e querido da comunidade, e o único que faz frente ao temido bandido de Marvin.
Os estudantes de Direito de hoje ainda podem ter algo a aprender com este filme. Ele nos mostra que o Estado não se faz somente de documentos, títulos e leis. Essas coisas de nada valem sem a legitimidade que somente a participação popular pode trazer. O advogado de Stewart aprende isso logo no começo da película, quando, ao levantar voz prisão contra Lee Marvin, que o assaltava e maltratava uma senhora, leva deste uma surra que o deixa à beira da morte. De nada adianta carteiradas como a que o personagem inutilmente tenta dar se não houver conteúdo material nenhum por trás de seu documento. O Estado, como um ser fantástico, somente existe se as pessoas acreditarem nele.
Da mesma forma que um Estado ineficiente nada pode contra tiros, mostrou-se inútil a força bruta que John Wayne utilizava para impor respeito sobre os mal-feitores quando os interesses da comunidade começam a ser ameaçados pelo poder econômico dos latifundiários. Para este problema, é necessário o Direito.
Stewart percebe que não pode haver Direito onde a população não reconhece os seus próprios. Começa então, com a ajuda do editor do jornal local, a levar educação ao povoado, não apenas alfabetizando-os, mas levando a eles noções de cidadania e democracia. Não o faz, contudo, de maneira impositiva, como um alienígena que procura impor regras novas descabidas. Antes, ele se integra à comunidade, trabalhando como garçom em troca de teto e comida, e submetendo-se aos mesmos percalços que a comunidade sofria.
Como dito anteriormente, por separados no tempo e no espaço que estejamos do episódio de “O homem que matou o facínora”, muitos elementos presentes no filme são aplicáveis de forma direta em nossa sociedade. Basta observar-se o trabalho de grupos de extensão da UNESP – Franca como o GAPAF e o Observatório Social das Relações de Consumo e se notará o mesmo espírito de inclusão social. A busca da cidadania pela educação tem como obra prima no Brasil a “Pedagogia do oprimido”, de Paulo Freire. Não seria difícil fazer um remake de “O homem que matou o facínora” passado nos dias de hoje, no Brasil, em alguma favela, alguma ocupação de trabalhadores sem-terra, ou em qualquer dos lugares onde pessoas pobres vivem sem amparo estatal algum, ausentes de direitos e de cidadania.
Em tempos de “Tropa de Elite”, em que se pese os exageros e ufanismos comuns na linguagem cinematográfica, talvez seja bom lembrar de um filme em que o Estado se pretende representante e defensor dos interesses do povo oprimido, e não seu carrasco.
posted by Fernando 12:43 AM
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