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{Domingo, Abril 27, 2008}


Quando eu tinha uns 12 anos, estudava no período vespertino em uma escola estadual. Fazia muito calor, a tarde inteira, e o fato de haver um pouco menos de cinqüenta crianças na sala só piorava o abafado.
Quando chovia todos ficavam mais animados. O frescor que a chuva trazia, junto com o barulho nas telhas, era como uma contra-professora. Como alguém que nos incentivava a falar mais, nos mexer mais, criançar mais, enfim.
E quando a chuva parava, por outro lado, dava-se o exato oposto. O barulho da chuva ia diminuindo e automaticamente o volume de nossas vozes diminuía também. Ficávamos tranqüilos e quietos. Mais tranqüilos do que quietos, mas em uma quietude sincera. Não imposta.
Uma coisa é quando queremos falar e alguém nos faz calar. Aí é um silêncio assustado e meramente suspenso. Tanto que, após exigí-lo, bastava que a professora se virasse para o quadro para que as conversas interrompidas dessem continuidade, pelo menos por mais uma frase, que encerrasse o assunto.
Já esse silêncio de quando a chuva parava, por ser voluntário, era quase definitivo. Todos sentiam-se bem na ausência do barulho. As professoras, apesar do calor, também ficavam muito mais tranqüilas quando não chovia.

Lembro-me de um dia no qual começou a chover durante a aula. Eu olhei para minha direita para conferir as gotas através da janela e, estranhamente, não vi chuva alguma. Então me virei para o outro lado, onde ficava a porta, e vi que para lá a chuva caía.
A chuva caía de um lado da sala, e de outro lado não. O comentário foi geral entre o pequeno corpo discente, e a professora, que estava ensinando algo como matemática ou história, viu suas palavras escoarem como se aquela meia-chuva lavasse completamente nossos cérebros.
Ela então exigiu atenção para a lousa e ordenou que parássemos com aquela história de chuva – É só uma nuvem! Parece que nunca viram! – Eu, pessoalmente, nunca tinha visto mesmo. E nem me lembro de alguma vez que voltei a ver: à esquerda chuva, à direita sol, à frente matemática (ou história).
Voltamos a ficar razoavelmente quietos e com a cabeça virada para frente, como quem está assistindo à aula. Mas não havia como ignorar, ou mesmo disfarçar, a excitação que aquele fugaz fenômeno causava.
Não recrimino minha antiga professora, a qual certamente tinha as melhores das intenções. Mas espero sinceramente que estes profissionais, que têm como missão justamente instigar a inteligência e a curiosidade, sejam capazes de compreender a beleza singela de acontecimentos como esse e admirá-los também.
Tanto não era apenas uma nuvem que, dentre tantas nuvem que me passaram, daquela me lembro até hoje.

posted by Fernando 4:17 PM

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{Quarta-feira, Abril 23, 2008}


- Que droga! Perdi meu RG!
- Experimenta procurar no Google...
posted by Fernando 9:57 PM

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{Quarta-feira, Abril 09, 2008}


É tosco, mas fui em quem fez:



Homenagem a uma dupla de duplas célebres.
posted by Fernando 11:35 PM

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{Terça-feira, Abril 01, 2008}


História Verídica

Isso aconteceu comigo semana passada. Estava voltando de um feriado em São Sebastião, quando desci na estação de Campinas para trocar de ônibus, pegando outro para Capivari.
Entre a chegada e a partida tinha ali uns quarenta minutos. Ajustei a agenda do meu celular para me avisar quando fosse hora de descer para a plataforma de embarque e fiquei zanzando durante um tempo por aquela rodoviária, que já me consumiu várias horas em espera.
Chegou uma hora, então, em que resolvi descer. Havia cansado de ficar lá em cima. E bem na hora que cheguei perto da escada o celular despertou, avisando que era hora mesmo. Desci e encontrei uma fila de pessoas que iam embarcar também. O ônibus chegou. Um rapaz (sem uniforme, devia ser novo no negócio) estava tendo problemas em manter as portas dos bagageiros abertas. Ele as levantava, elas caiam. Fui até lá e tentei mostrar para ele como a mesma trava que fechava as portas serviam para segurá-las, mas não consegui. Chegamos os dois à conclusão de que elas estavam quebradas.
Eu fiquei ali então, segurando a porta enquanto o garoto colocava algumas malas no bagageiro. A minha mala mesmo eu preferia carregar comigo, já que nela estavam meu livro, meu radinho de pilha, alguma comida, essas coisas que destraem.
Depois fui para o final da fila. Fiquei ali de pé pensando no meu novo emprego. Já tinha trabalhado uma semana. Pensava se os meus colegas estavam satisfeitos comigo; se meu chefe estava satisfeito comigo; o que iria fazer no dia seguinte, quando chegasse... Tive uma idéia para uma contestação que tinha que ser feita... E de repente vejo o ônibus indo embora.
Fico atônito pelo tempo do ônibus sair de sua vaga e saio correndo atrás dele. Na mesma hora estão saindo outros cinco ônibus e eu corro entre eles, com minha mala nos braços. Saio da rodoviária pela saída da garagem e viro à esquerda, torcendo para que o motorista, parado no semáforo, me deixe entrar.
Mas no semáforo o ônibus parado é um Cometa, não o meu. Será que o meu passou no sinal, que teria fechado justo naquele momento? Lembrei, mais uma vez surpreendido com minha panaquice, que virei para o lado errado. O ônibus havia virado à direita.
Corri ainda mais, e a mala começou a ficar pesada. Fui atrás do ônibus que eu tinha quase certeza ser o meu por uns dois quarteirões, sempre de cinco a dez metros atrás dele. Então ele virou a esquina e seguiu. Enquanto eu fiquei no meio da rua, sem fôlego e sem forças, gritando com a passagem na mão.

Comecei a caminhar de volta para a rodoviária, derrotado. Resolvi que ia prestar atenção nas placas dos carros em frente ao prédio, porque podia ser que alguém de Capivari tivesse ido deixar algum parente por lá e estivesse saindo naquele momento. Fui olhando carro por carro com que cruzava, mas, é claro, não encontrei nenhuma carona.
Entrei na rodoviária pensando no que diria no guichê, quando fosse pedir para eles trocarem meu bilhete por um do próximo ônibus, provavelmente dalí a uma hora. Com certeza não ia falar que fiquei olhando o ônibus ir embora e não consegui alcançá-lo na corrida. Mas já me acontecera de perder a viagem e trocarem a passagem. Deve haver alguma lei que os obrigue a fazer isso (do contrário nunca o fariam, com certeza). Diria que perdi o ônibus por pouco e ponto. Eram naquele momento, segundo meu celular... dezenove horas? Bom, ou toda a corrida atrás do ônibus demorou menos de um minuto, ou ele saíra adiantado. De qualquer maneira, era um argumento a mais para que trocassem a passagem, já que era a hora combinada e eu estava lá, mas o ônibus não.
Para confirmar, chequei o relógio da rodoviária. Cinco minutos para as sete.
Mas como? No momento em que vi aquele relógio estava exatamente na frente da escada para a plataforma. O lugar onde estava alguns minutos antes, quando desci para pegar o ônibus.
Desci, pela segunda vez, a escada e lá estavam as pessoas, e logo chegou o ônibus. Só que desta vez o garoto sabia fechar a porta do bagageiro. Não tive dúvidas: voltei no tempo.

Francamente, não pensei muito a respeito da causa daquilo. Estava satisfeito por ter a chance de pegar o ônibus e chegar em casa uma hora mais cedo, e assim o fiz. Foi uma experiência tão inexplicável quanto a vez em que um pingente meu, feito de lata, o qual tinha uma inscrição católica da qual não me lembro, saiu do cordão que o sustentava no meu pescoço, sem que se rompesse o cordão e nem o buraco do pingente. Acho que coisas mágicas acontecem na vida de todo mundo.

posted by Fernando 11:59 PM

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